A Viela 36 foi inaugurada nos dias 12 e 13 de setembro, no Setor Marista, em Goiânia, após uma intervenção que transformou uma área marcada por descarte irregular de lixo, problemas de esgoto, circulação desordenada de veículos e situações de insegurança. Idealizado pela médica e empresária Larissa Oliveira, o projeto recebeu investimento superior a R$ 2 milhões e converteu o trecho em um espaço aberto de convivência, arte, educação, natureza, gastronomia e serviços.
Com 1.500 m², a Viela 36 reúne arquitetura, paisagismo, intervenções artísticas, percurso educativo e estabelecimentos comerciais. A iniciativa utiliza recursos privados e integra o Programa Adote Uma Praça, da Prefeitura de Goiânia, numa parceria com o poder público. O espaço está aberto à população.
Prioridade a pedestres e áreas de convivência
Bruno Veras, do escritório Costa Veras Arquitetura, assina o projeto arquitetônico. Gui Mesquita, do escritório Gui Mesquita Arquitetura e Paisagismo, responde pelo desenho urbano e paisagístico. A intervenção inclui jardins, iluminação, bancos, vegetação, áreas de permanência e espaços para manifestações artísticas e atividades comerciais.
Uma das referências do projeto foi o conceito holandês de woonerf, ou “rua viva”. Nesse modelo, pedestres, ciclistas e veículos dividem o espaço, mas os pedestres têm prioridade. O desenho da via também reduz a velocidade dos automóveis. “A proposta é fazer com que a via deixe de ter uma função exclusivamente de passagem e passe a funcionar também como lugar de permanência e convivência. O desenho urbano ajuda a reduzir naturalmente a velocidade dos veículos, elimina barreiras e incorpora vegetação, mobiliário e áreas de estar ao percurso”, explica Gui Mesquita. Para isso, o projeto substituiu o asfalto por piso intertravado. Estreitamentos, canteiros e mobiliário urbano também passaram a integrar a rua. O projeto ainda buscou referências em experiências de Delft e Amsterdã, na Holanda, além de Tóquio, Londres e Pontevedra.
A arte integra o percurso
A arte integra o percurso como parte da experiência. A Viela 36 reúne trabalhos de Cléa Costa, Renato Griffith, Samuel Caixeta, Luís Olinto e Maicon Soares. O espaço também apresenta informações sobre os artistas e os conceitos das intervenções.
Entre as obras está “Gratidão”, de Cléa Costa, que viveu por décadas na Rua 36. A artista doou a escultura de ferro ao projeto. A peça pesa cerca de 280 quilos.
O percurso também inclui os elementos Raízes, Portal do Futuro e Árvore da Vida.
“A arte tem a capacidade de nos tirar do automático. Queremos que as pessoas observem, façam perguntas, conheçam quem está por trás de cada trabalho e estabeleçam relações entre aquelas obras e suas próprias histórias”, diz Larissa Oliveira. Outro destaque é um painel de Luís Olinto dedicado à história e à cultura de Goiás, com referências à ocupação do Centro-Oeste, aos carros de boi, à Cidade de Goiás, a Pedro Ludovico Teixeira, à construção de Goiânia e ao patrimônio Art Déco. Cora Coralina, Belkiss Carneiro de Mendonça e Antônio Poteiro estão entre as personalidades representadas.

Um projeto educativo com visitas para crianças e adolescentes
A Viela 36 também foi planejada como espaço de aprendizagem. O projeto histórico-pedagógico, sob responsabilidade da mestre em História e pedagoga Mariana Kaadi Pio, usa arte, arquitetura, história, cultura e a própria transformação da rua como elementos das atividades. O percurso está dividido em três etapas: a Estação dos Dons ou Talentos, que trabalha o reconhecimento das capacidades individuais; a segunda, que reúne Capacitação, Movimento e Relacionamento; e a Estação da Entrega, que relaciona talentos, conhecimentos, experiências e relações com propósito e ação.
A programação prevê visitas de escolas acompanhadas por professores mediadores, com atividades adaptadas às faixas etárias, atenção especial ao público de 8 a 16 anos e duração média de duas horas. Diário de bordo, storytelling e QR Codes estão entre os recursos. “Inteligência artificial e outros recursos tecnológicos podem ampliar o conhecimento, mas não substituem presença, escuta, diálogo e convivência. Queremos mostrar que a aprendizagem também acontece com o corpo em movimento, com os sentidos, com a curiosidade, com o fazer e com a interação com o mundo real”, destaca Mariana. Também estão previstas oficinas de marcenaria, jardinagem, pintura e escultura, com metodologia que pode ser relacionada ao currículo das escolas e às habilidades da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).
46 árvores do Cerrado
O paisagismo recebeu 46 árvores do Cerrado, além de jardins distribuídos pelo espaço. A arborização foi planejada para ampliar as áreas sombreadas e melhorar o conforto térmico numa região marcada pela verticalização. Vegetação, pisos drenantes e o aumento das superfícies permeáveis compõem a estratégia ambiental. Segundo Gui Mesquita, as plantas acompanham o percurso, ajudam a criar áreas de permanência e contribuem para reduzir os efeitos das ilhas de calor.
Gastronomia, saúde e comércio no espaço
Além das atividades culturais e educativas, o endereço recebe estabelecimentos de gastronomia, saúde, comércio e serviços. Entre as operações informadas estão a clínica dermatológica Souty Health, a sorveteria libanesa Bachir, o Arabito, a Tecnótica e as Óticas Motta. A Bachir foi fundada em 1936 e trabalha com sorvetes artesanais de inspiração árabe, enquanto o Arabito abriu sua primeira unidade em Goiânia, com foco na culinária libanesa e em sanduíches shawarma. Segundo o projeto, a Viela 36 deve gerar 220 postos de trabalho diretos e indiretos, considerando os estabelecimentos, serviços, manutenção e funcionamento do espaço.

Guia do Viajante — Viela 36
Onde fica
No Setor Marista, um dos bairros mais conhecidos de Goiânia, em um trecho da Rua 36.
O que é
Um espaço aberto de convivência de 1.500 m², inaugurado em 12 e 13 de setembro de 2026, que transformou uma viela degradada em uma “rua viva” (conceito woonerf) com prioridade ao pedestre.
Entrada
Aberto à população.

O que ver e fazer
Percorrer as intervenções artísticas (incluindo a escultura “Gratidão”, de Cléa Costa, e o painel de Luís Olinto sobre a história de Goiás), aproveitar as áreas de estar sombreadas pelas 46 árvores do Cerrado e conhecer a gastronomia, como a sorveteria libanesa Bachir e o Arabito.
Para escolas
Há um percurso histórico-pedagógico com visitas mediadas, voltado especialmente ao público de 8 a 16 anos, e oficinas de marcenaria, jardinagem, pintura e escultura.
Dica de quem conhece
A Viela 36 é a cara de um novo jeito de ocupar a cidade: vá com tempo para caminhar sem pressa, observar as obras de arte e entender a história de Goiás contada no painel de Luís Olinto. O fim de tarde é um bom momento, quando o calor cede e o espaço ganha vida com a gastronomia — vale provar o sorvete árabe da Bachir, casa de quase um século, e o shawarma do Arabito. Se você é educador, procure a organização para agendar uma visita pedagógica com a turma. E aproveite que está no Setor Marista, um dos points de gastronomia e vida noturna de Goiânia, para emendar o passeio com o entorno.










