Ahhh, Cora Coralina… ou melhor, Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas! Uma mulher completamente à frente de seu tempo, autora de uma obra riquíssima, com escritos que, aliás, nem todos foram divulgados, alguns ainda guardados a lápis. Mãos que, enquanto escreviam, também cozinhavam doces e quitandas que, até hoje, são associados à sua figura, lado a lado com suas poesias.
Nascida na cidade de Goiás, a antiga Vila Boa, em 20 de agosto de 1889, na Casa Velha da Ponte, às margens do Rio Vermelho, Cora cresceu em um ambiente que hoje abriga um museu dedicado à sua memória. Filha de Francisco de Paula Lins dos Guimarães Peixoto, desembargador nomeado por Dom Pedro II, e de Jacinta Luísa do Couto Brandão, uma dona de casa, Anna (de nome extenso) cursou apenas até a terceira série do ensino primário.
Apaixonada por literatura desde a infância, Cora viveu muitos anos fora da cidade de Goiás, especialmente em São Paulo. Seus textos retratam a vida simples e compõem uma obra extensa, ainda não completamente divulgada. Cadernos originais e inéditos, alguns escritos a lápis, estão sob os cuidados de sua única filha viva, que reside em São Paulo. Outra parte significativa de seu acervo, incluindo verdadeiras relíquias, encontra-se em sua cidade natal. Seu primeiro livro, “Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais”, foi lançado em 1965, quando já tinha 76 anos.
Enquanto a mão direita escrevia, a esquerda trilhava outro caminho igualmente marcante: a culinária.
Doceira de mão cheia, Cora sustentava sua família vendendo doces, assim como tantas outras mulheres da época. Entre 1965 e 1979, Aninha começou a fabricar e comercializar doces, que iam de laranja, figo, mamão, goiaba e banana aos famosos pastelinhos de Goiás, que encantavam a todos.
Mais do que isso, a matéria-prima de suas iguarias vinha diretamente do pomar da Casa da Ponte. Pessoas de várias partes do país viajavam até sua casa não apenas para comprar suas delícias, mas também para ouvi-la declamar poesias e contar causos.
Embora parecesse apenas mais uma goiana do sertão do Cerrado, levando uma vida simples e batalhadora, Cora tornou-se um ícone ao misturar causos, lendas e cotidiano em imagens poéticas únicas. Poucos haviam feito isso antes dela. Cora trouxe a vida de Anna para o papel.
Seu merecido reconhecimento veio, ainda que tardiamente, a partir de 1975, quando finalmente conquistou fama no Brasil e no exterior. Participou de eventos literários, concedeu entrevistas e foi homenageada em solenidades por todo o país.
De simples doceira e contadora de histórias, Cora recebeu diversas premiações e honrarias, inclusive internacionais. Foi tema da 15ª edição do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA) em 2013. Em 2015, foi agraciada na 34ª edição do Festival de Cinema sobre Arte e Biografias de Asolo, na Itália. Em 2017, tornou-se tema da Casa Cor e foi reverenciada pelo Google.
Sua biografia inclui o lançamento de seu segundo livro, “Meu Livro de Cordel”, em 1976, seguido por uma segunda edição de “Poemas dos Becos de Goiás”, em 1978, “Vintém de Cobre – Meias Confissões de Aninha”, em 1984, “Estórias da Casa Velha da Ponte” e o livro infantil “Os Meninos Verdes”, em 1985.
Cora Coralina faleceu em Goiânia, em 10 de abril de 1985, aos 95 anos, deixando um legado inestimável.
Cora deu outro sentido à vida de Anna Lins, entre doces e palavras. Hoje, Cora e Anna são lembradas com orgulho e saudade pelos goianos e por todo o Brasil. Seu nome está em museus, ruas, praças, espaços culturais e inúmeras referências, consolidando-a como um ícone imortal de Goiás e da literatura brasileira.