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Antes de ser cidade, Goiânia foi um desenho. Quando a pedra fundamental foi lançada, numa terça-feira, 24 de outubro de 1933, a nova capital de Goiás já existia no papel — pensada do zero, rua por rua, para ser a cidade moderna que o interior do Brasil ainda não tinha. É uma das poucas capitais brasileiras inteiramente planejadas, concebida no projeto antes de nascer no terreno.

Idealizada pelo interventor federal Pedro Ludovico Teixeira, a nova capital nasceu no contexto da transferência da sede do governo da antiga Cidade de Goiás — a histórica Vila Boa — para um ponto mais central e estratégico do estado, no espírito de modernização do país após a Revolução de 1930. A data da pedra fundamental, 24 de outubro, foi também um gesto simbólico, próximo ao aniversário da Revolução de 1930. Nos documentos da época, as autoridades ainda chamavam Goiânia de “nova cidade” ou “futura capital”. O governo só oficializou o nome Goiânia em 1935.

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O homem que desenhou a cidade

O plano coube a Attílio Corrêa Lima, considerado o primeiro urbanista diplomado do Brasil. Formado pela Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, e pelo Instituto de Urbanismo da Universidade de Paris, ele foi convidado por Pedro Ludovico, em 1933, para realizar o Plano Urbanístico da Nova Capital. Sua formação francesa deu à cidade a marca do urbanismo europeu do início do século XX — ruas largas, avenidas arborizadas, praças e passeios públicos. 

Corrêa Lima elaborou o plano-piloto de Goiânia entre 1933 e 1934, mas afastou-se do projeto em 1935, ao julgar que a empreiteira responsável pela obra, a Coimbra Bueno & Cia., estava comprometida com interesses especulativos do mercado imobiliário. Depois dele, o engenheiro Armando Augusto de Godói revisou o traçado e desenvolveu o plano diretor, inspirado na teoria da cidade-jardim do inglês Ebenezer Howard. A execução ficou a cargo dos irmãos rio-verdenses Jerônimo e Abelardo Coimbra Bueno. 

O traçado radial: avenidas que são raios

O coração do projeto — e o que até hoje define o centro de Goiânia — é a Praça Cívica. O plano era radioconcêntrico: as avenidas foram planejadas para confluir para uma praça central, localizada na parte mais alta do terreno. Dela partem a Avenida Goiás, a Avenida Araguaia e a Avenida Tocantins, formando um triângulo a partir da Praça Cívica. 

A lógica é a de um leque, ou de raios de sol: a cidade se espalha a partir de um único ponto. O desenho foi inspirado em cidades europeias, com as avenidas representando raios que convergem para um centro — na capital goiana, a Praça Cívica, onde se concentra o poder. Corrêa Lima aproveitou a topografia local a seu favor: nos pontos mais altos do terreno, agrupou os edifícios que considerava mais importantes, o palácio do governo e os prédios administrativos. Por isso a Praça Cívica reúne, até hoje, as sedes dos três poderes — o Palácio das Esmeraldas (Executivo), o Tribunal de Justiça (Judiciário) e a Assembleia Legislativa (Legislativo). 

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Uma cápsula do tempo sob a Praça Cívica

O lançamento da pedra fundamental não foi só simbólico. Em 24 de outubro de 1933, uma urna com documentos, jornais, moedas e outros registros do dia foi enterrada junto à pedra fundamental da nova capital. O objeto funciona como uma espécie de cápsula do tempo no marco zero de Goiânia. Segundo a documentação oficial, Pedro Ludovico Teixeira lançou a pedra “em pleno altiplano, onde atualmente se encontra o Palácio das Esmeraldas, na Praça Cívica”.

Do traçado ao patrimônio tombado

O projeto de Goiânia definiu não apenas o traçado das ruas, mas também a arquitetura da nova capital. Os primeiros prédios públicos adotaram o estilo art déco, com construções concentradas principalmente entre as décadas de 1940 e 1950. Esse patrimônio ganhou destaque nacional. Em 2003, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) tombou 22 bens do núcleo pioneiro. Goiânia abriga o maior conjunto art déco do Brasil e ocupa a segunda posição mundial, atrás apenas de Miami. A Praça Cívica, marco zero da cidade, concentra 12 dos 22 bens tombados, entre eles o Palácio das Esmeraldas.

Mais do que a arquitetura, o próprio desenho urbano virou patrimônio. Nos últimos anos, o Iphan passou a estabelecer critérios para preservar justamente o traçado radial e a função da Praça Cívica como elemento irradiador, com as avenidas que convergem até ela. Quase um século depois, a lógica de 1933 ainda organiza a cidade: Goiânia nasceu no papel — e boa parte desse papel continua de pé.

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Entenda a História

A data

Goiânia celebra seu aniversário em 24 de outubro, data em que Pedro Ludovico Teixeira lançou a pedra fundamental da cidade, em 1933. Dois anos depois, em 1935, o governo oficializou o nome “Goiânia”. Em 1937, a capital goiana deixou a Cidade de Goiás e passou para Goiânia.

Quem planejou

O urbanista Attílio Corrêa Lima, primeiro urbanista diplomado do Brasil, formado no Rio e em Paris. Elaborou o plano entre 1933 e 1934 e se afastou em 1935; depois, Armando de Godói revisou o traçado e fez o plano diretor, e os irmãos Coimbra Bueno executaram a obra.

O traçado

Radioconcêntrico (radial): as avenidas Goiás, Araguaia e Tocantins partem da Praça Cívica, no ponto mais alto, como raios de um leque.

A Praça Cívica

Marco zero da cidade, concentra os três poderes e, sob ela, uma urna de 1933 com documentos, jornais e moedas da fundação.

O legado tombado

O conjunto art déco, com 22 bens, foi tombado pelo Iphan em 2003 — o maior do Brasil. O próprio traçado radial é hoje objeto de preservação.

Nos passos da capital planejada

Para conhecer de perto o projeto que deu origem a Goiânia, o roteiro começa (naturalmente) no centro de tudo:

  • Praça Cívica: o marco zero, de onde partem as grandes avenidas. Reúne o Palácio das Esmeraldas, o Coreto e boa parte do acervo art déco tombado.
  • Avenidas Goiás, Araguaia e Tocantins: as três vias que formam o traçado radial — dá para sentir a lógica do leque caminhando pelo Setor Central.
  • Teatro Goiânia, Lyceu de Goiânia e o conjunto art déco: exemplares da arquitetura dos primeiros anos da capital.
  • Museu Zoroastro Artiaga (na Praça Cívica): guarda, inclusive, a urna do Batismo Cultural e acervo sobre a história da cidade.

Dica de quem conhece: outubro, mês do aniversário de Goiânia, é a época perfeita para esse mergulho. Faça um passeio a pé pelo Setor Central no fim da tarde, quando o calor cede, começando pela Praça Cívica e seguindo por uma das grandes avenidas — assim você percebe, do chão, o desenho radial que normalmente só se enxerga do alto. É um roteiro urbano, de caminhada leve, que ganha outro sentido quando se conhece a história por trás de cada linha do mapa.

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