Viajar deveria significar descanso, descoberta e bem-estar. No entanto, para muitas pessoas neurodivergentes, experiências comuns em aeroportos, hotéis e atrações turísticas ainda podem gerar ansiedade, desconforto e sobrecarga sensorial. Pensando nisso, o Ministério do Turismo lançou um guia inédito voltado ao atendimento de turistas neurodivergentes no país.
O material foi apresentado durante o Salão do Turismo, realizado em Fortaleza, e surge como uma iniciativa para tornar o turismo brasileiro mais acessível, humano e preparado para diferentes perfis de viajantes.
Chamado de “Guia Para Atender Bem Turistas Neurodivergentes”, o documento reúne orientações práticas destinadas a hotéis, aeroportos, restaurantes, eventos e atrativos turísticos. A proposta é ajudar profissionais do setor a compreenderem melhor as necessidades de pessoas autistas, com TDAH, dislexia e outras condições neurodivergentes.
O guia completo pode ser acessado em:
Guia Para Atender Bem Turistas Neurodivergentes

Pesquisa revelou desafios frequentes durante viagens
O material foi elaborado a partir de uma pesquisa nacional conduzida pela Universidade do Estado do Amazonas em parceria com o Ministério do Turismo. O levantamento ouviu 761 pessoas entre fevereiro e março de 2026, incluindo pessoas neurodivergentes, familiares e profissionais ligados ao setor turístico.
Os dados mostram obstáculos recorrentes enfrentados durante viagens. Segundo a pesquisa, 90,1% dos entrevistados afirmaram já ter sofrido julgamentos relacionados ao comportamento neurodivergente em ambientes turísticos. Além disso, quase 90% disseram que equipes de atendimento não compreendem suas necessidades específicas.
Entre os principais problemas relatados estão:
- excesso de barulho;
- iluminação intensa;
- filas longas;
- ambientes lotados;
- mudanças inesperadas na programação.
Para muitos viajantes, essas situações provocam sobrecarga sensorial e tornam experiências simples de lazer mais cansativas.
Outro ponto destacado foi a falta de previsibilidade nos espaços turísticos. Informações pouco claras, sinalização confusa e ausência de locais tranquilos aparecem entre os fatores que dificultam a experiência.

Pequenas mudanças podem gerar grande impacto
O guia apresenta recomendações que podem ser adotadas sem necessidade de grandes reformas estruturais. Entre as medidas sugeridas estão:
- criação de áreas silenciosas para regulação sensorial;
- comunicação mais objetiva e clara;
- redução de estímulos excessivos;
- flexibilização de procedimentos;
- informações antecipadas sobre fluxo de pessoas, iluminação e tempo de espera.
A proposta é permitir que cada visitante consiga se planejar com mais segurança e conforto.
Além disso, o treinamento das equipes aparece como prioridade. Segundo o estudo, o acolhimento e a forma de comunicação dos profissionais influenciam diretamente na experiência das pessoas neurodivergentes.
Para o ministro do Turismo, Gustavo Feliciano, a iniciativa representa um avanço importante para o turismo inclusivo brasileiro.
“Esse material vai contribuir para que todos vivam as experiências turísticas com conforto, respeito e dignidade.”

Turismo mais humano e acessível
O lançamento do guia acompanha uma transformação cada vez mais presente no setor turístico: a busca por experiências mais humanas, acessíveis e acolhedoras.
Nos últimos anos, hotéis, espaços culturais e eventos passaram a discutir inclusão com mais profundidade. Ainda assim, especialistas avaliam que ainda existe um longo caminho na preparação de ambientes e equipes.
Segundo a coordenadora da pesquisa, a professora doutora Marklea da Cunha Ferst, pequenas adaptações já conseguem gerar mudanças significativas.
“O que a pesquisa mostra é que a inclusão no turismo não depende apenas de grandes mudanças estruturais. Pequenos ajustes podem transformar completamente a experiência.”
Mais do que uma cartilha técnica, o novo guia funciona como um convite à empatia. Afinal, viajar também significa sentir pertencimento, conforto e liberdade para viver experiências sem medo, julgamentos ou constrangimentos.









