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Não é preciso atravessar o oceano para descobrir uma caminhada de vários dias, cercada por paisagens impressionantes e histórias que fazem cada etapa valer a pena. Em Goiás, existe um roteiro que lembra, pela proposta de percorrer longas distâncias e viver a experiência do caminho, as famosas jornadas de Santiago de Compostela, na Espanha. Trata-se do Caminho de Santana, um circuito de 78 quilômetros em Cavalcante, na Chapada dos Veadeiros.

A comparação é uma forma de traduzir a experiência, não de afirmar que os dois caminhos têm a mesma origem ou tradição religiosa. Enquanto Santiago de Compostela é um destino histórico de peregrinação, o roteiro goiano tem como protagonistas a natureza do Cerrado, a história regional e as paisagens de uma das áreas mais preservadas do Brasil. O Caminho de Santana começa e termina no mesmo lugar: a praça da Igreja Matriz de Sant’Ana, no centro histórico de Cavalcante. Dali, os caminhantes seguem por serras, rios, formações rochosas e áreas protegidas, numa jornada de quatro a oito dias.

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Uma jornada de 78 km pelo coração do Cerrado

O percurso está dividido em três trechos e pode ser feito nos dois sentidos. Ao longo do caminho, a paisagem muda entre vegetação campestre, formações florestais, serras, cânions e cursos d’água. A rota acompanha a bacia do Rio das Almas e passa entre as serras das Araras e de Santana — uma oportunidade de observar o Cerrado além das cachoeiras que normalmente dominam os roteiros mais conhecidos.

Segundo o cadastro da Rede Nacional de Trilhas, o circuito está relacionado a 11 áreas protegidas, incluindo o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, a APA de Pouso Alto e diferentes reservas particulares. Isso não significa que o caminhante entre em todas durante a travessia, mas que a rota está inserida numa região de grande relevância ambiental. O reconhecimento federal da trilha foi formalizado pela Portaria MMA nº 1.541, de 23 de dezembro de 2025.

O que o Caminho de Santana tem de diferente

Quem visita a Chapada dos Veadeiros geralmente organiza a viagem em torno de cachoeiras e passeios de um dia. O Caminho de Santana propõe outra forma de conhecer a região: caminhar durante vários dias, acompanhando as mudanças da paisagem e reservando tempo para os detalhes do percurso. A experiência não se resume a chegar a uma queda d’água, fotografar e voltar — a própria travessia é o atrativo.

O roteiro atravessa propriedades particulares, reservas ambientais e áreas com pontos de apoio, como campings e pousadas cadastrados no eTrilhas. Antes da viagem, confirme a disponibilidade desses locais. A extensão do circuito também permite conhecer melhor Cavalcante, município que preserva capítulos importantes da história de Goiás. A cidade integra uma região marcada pela cultura quilombola Kalunga.

Paróquia Sant’Ana, onde se inicia o Caminho de Santana, em Cavalcante, em Goiás. | Foto: Diocese de Formosa

A história de Cavalcante faz parte da experiência

Fundada durante o ciclo do ouro, Cavalcante preserva referências históricas que ajudam a compreender a ocupação do norte goiano. A escolha da praça da Igreja Matriz de Sant’Ana como ponto de partida e chegada cria uma conexão simbólica entre o roteiro e a cidade — o nome da trilha faz referência à santa que dá nome à igreja.

A região também abriga comunidades Kalunga, reconhecidas pela preservação de tradições e modos de vida transmitidos entre gerações. O turismo de base comunitária é uma das formas de conhecer esse patrimônio, mas visitas às comunidades, refeições tradicionais e hospedagens familiares precisam ser organizadas com os responsáveis locais — não se deve presumir que estejam incluídas automaticamente na caminhada. Essa é uma diferença importante para quem quer planejar uma viagem responsável, respeitando os moradores e as regras de acesso aos territórios.

Cachoeiras famosas podem complementar a viagem

Cavalcante abriga algumas das paisagens mais conhecidas da Chapada: a Cachoeira Santa Bárbara (das águas azul-turquesa), a Capivara, a Candaru, o Complexo do Prata e a Ponte de Pedra. Mas é preciso distinguir: estar em Cavalcante não significa estar no traçado do Caminho de Santana, e nem todos esses atrativos fazem parte da caminhada principal. Quem quiser incluir cachoeiras deve verificar deslocamentos, ingressos, necessidade de condutores e tempo disponível, sem contar com esses passeios como paradas garantidas.

A caminhada é difícil?

Embora a apresentação oficial descreva trechos predominantemente leves a moderados, completar 78 quilômetros exige preparo físico e organização. O cadastro técnico da eTrilhas classifica o circuito completo como difícil, aponta sinalização parcial e indica exposição elevada ao sol e a riscos naturais. Ou seja, não é uma caminhada urbana nem um passeio improvisado.

Antes da travessia, é preciso planejar água, alimentação, peso da mochila, paradas e locais de pernoite, além de considerar as condições climáticas — sobretudo na chuva, quando cursos d’água e terrenos podem apresentar riscos. Para quem não conhece a região, buscar orientação de condutores locais é uma medida prudente.

Como planejar a viagem

A primeira etapa é chegar a Cavalcante, no norte de Goiás, na região turística da Chapada dos Veadeiros. O início oficial fica na praça da Igreja Matriz de Sant’Ana, e, como a caminhada retorna ao mesmo ponto, a logística de chegada e saída se organiza a partir da cidade. Os 78 km podem levar de quatro a oito dias, conforme o preparo, o ritmo e as paradas. Como a rota passa por propriedades privadas, é essencial confirmar permissões de acesso, pontos de apoio e eventuais agendamentos antes de partir. Não há tarifa única de visitação, hospedagem ou guia confirmada nas fontes oficiais, então qualquer orçamento deve ser feito diretamente com os prestadores locais. Quem busca uma experiência mais curta pode consultar operadores sobre trechos específicos, sem presumir que todas as etapas tenham acesso independente.

Para quem gosta de caminhadas de longo curso, o Caminho de Santana oferece uma proposta diferente das viagens convencionais à Chapada. A comparação com Santiago de Compostela ajuda a imaginar o espírito da jornada a pé, mas a identidade do caminho é inteiramente goiana: começa em uma cidade histórica, percorre serras e rios do Cerrado e retorna ao lugar de onde partiu.

→ Sugestão de link interno (início): a primeira matéria sobre o Caminho de Santana ou o guia da Chapada dos Veadeiros. → Sugestão de link interno (fim): matéria sobre o Caminho dos Veadeiros (trilha de 1.212 km) ou sobre Cavalcante e o território Kalunga

Descobrimos a 'Santiago de Compostela' do Brasil e ela fica em Goiás –  FOLHA DE NOTICIAS

Guia do Viajante — Caminho de Santana, em Cavalcante

O que é

Um circuito de caminhada de longo curso de 78 km, em Cavalcante, na Chapada dos Veadeiros, que começa e termina na praça da Igreja Matriz de Sant’Ana. Reconhecido pela Rede Nacional de Trilhas (Portaria MMA de dez/2025).

Duração e dificuldade

De quatro a oito dias, em três trechos. O cadastro técnico (eTrilhas) classifica o circuito completo como difícil, com sinalização parcial e exposição ao sol — exige preparo e planejamento.

Onde fica / como chegar

Cavalcante, no norte goiano, a cerca de 320 km de Goiânia e 320 km de Brasília (aeroporto mais próximo). A logística se organiza a partir da cidade.

O que vê pelo caminho

Serras das Araras e de Santana, bacia do Rio das Almas, cânions, cursos d’água e o Cerrado preservado, numa região de 11 áreas protegidas.

Atenção ao planejamento

A rota passa por propriedades particulares — confirme permissões, pontos de apoio e agendamentos antes de partir. Não há tarifa única; orce com os prestadores locais. Camping e pousadas existem na região, mas confirme a disponibilidade.

Cultura Kalunga

Cavalcante integra o território quilombola Kalunga. Visitas, refeições e hospedagens comunitárias não estão automaticamente incluídas na caminhada — organize com os responsáveis e respeite as regras de acesso.

Melhor época

A estação seca (maio a outubro), com trilhas mais firmes e menos risco em cursos d’água. Evite o período chuvoso para a travessia.

Dica de quem conhece

Encare o Caminho de Santana como o que ele é: uma travessia de longo curso, não um passeio de cachoeira. Vá com preparo físico, mochila bem pensada (água, comida, pernoite) e, se não conhece a região, contrate condutores locais — além da segurança numa trilha de sinalização parcial, eles conhecem os acessos às propriedades e as histórias do território Kalunga. Reserve pontos de apoio com antecedência e vá na seca. Se quiser só sentir o espírito do “Santiago goiano” sem os 78 km, pergunte aos operadores sobre trechos menores. E, como você já estará em Cavalcante, programe dias extras para as cachoeiras famosas (Santa Bárbara e companhia) — mas lembre que elas são passeios à parte, não paradas da trilha.

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